Autoaceitação do corpo: Felicidade não é estar no padrão

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Se você gostar de seu corpo e entender como ele é, pode cuidar dele da melhor forma


O que define você? Há aquilo que está dentro (as ideias, os ideais, os sentimentos, a criatividade), as suas relações (com a família, os amigos, os parceiros amorosos), os seus interesses (musicais, artísticos, religiosos)…

Com esse tanto de aspectos a partir dos quais é possível olhar para uma pessoa, por que é comum achar que nos resumimos a um corpo? E, pior: por que o fato de estar fora de um padrão gera tanto preconceito, julgamento, insatisfação e até tristeza?

Principalmente no verão, há quem acredite que é necessário estar magro e definido para ser feliz. Se fala até em “corpo de praia”, como se fosse necessário uma forma específica para aproveitar o mar, o Sol e a areia. Com mais um ano entrando, refletir se essa vontade de mudança tem como objetivo apenas atender a um padrão pode ser o caminho para ter uma relação mais saudável com o corpo e a mente.

Essa reflexão pode levar ao questionamento de ser certos conceitos. Você já se perguntou se está querendo emagrecer para você ou para os outros? Ou se sua relação com a alimentação é de culpa, autopunição ou tentativa de compensação? E até mesmo se é correto com você tentar estratégicas que prometem ações milagrosas, mas que trazem muito desconforto e efeitos colaterais?

Pensar a respeito, fazer questionamentos e buscar respostas dentro de si ajuda a conhecer a si mesmo, mas também contribui para construir a autoaceitação.

Um conceito que é importante ter em mente é que nem sempre a magreza foi sinônimo de beleza. “O padrão corporal mudou ao longo das décadas, o que significa que o corpo que é padrão hoje, em outros momentos não era tido como ideal”, explica Amanda Gallo, psicóloga clínica e colaboradora do Ambulim (Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP).

Assim, quanto mais presentes os estímulos visuais desta determinada forma, como a publicidade e as fotos de famosos no Instagram, mais tomamos o corpo magro e definido como modelo para nós. “As pessoas acabam usando esses modelos como referência, e idealizam chegar àquela estrutura corporal em algum momento da vida. Entretanto, o que não é informado é que em grande parte das vezes o custo para se atingir esse corpo (tido como ideal) é altíssimo, e pode envolver restrições alimentares e realização de atividade física exagerada”, completa.

Por que queremos ser belos?

Se a magreza ainda é colocada como sinônimo de beleza, há uma pergunta anterior a se fazer: por que se busca tanto por agradar esteticamente?

No livro O Mito da Beleza, Naomi Wolf explica: “As qualidades que um determinado período considera belas nas mulheres são apenas símbolos do comportamento feminino que aquele período julga ser desejável. O mito da beleza na realidade sempre determina o comportamento, não a aparência”, e completa “O mito da beleza mutila o curso da vida de todas. E o que é mais instigante, a nossa identidade deve ter como base a nossa “beleza”, de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa, trazendo nosso amor-próprio, esse órgão sensível e vital, exposto a todos”.

Desde criança, é normal que as meninas ouçam como são ou estão bonitas. Isso muitas vezes é valorizado mais do que suas notas da escola ou sua criatividade. Com os meninos, os brinquedos e os elogios estímulam a força e a valentia. No entanto, segundo a psicóloga Amanda, com a tendência a se aceitar mais a vaidade masculina, a baixa autoestima relacionada ao corpo também tem atingido os homens.

“Em paralelo a essa possibilidade de autocuidar-se que o homem foi conquistando, vem também a contaminação por essas marcas negativas que a mídia traz também”, explica.

Restrição alimentar

A busca pela magreza a qualquer custo vai envolvendo o discurso da saúde. A partir daí, parece que ser magro é sinônimo de ser saudável, quando na verdade as dietas restritivas e a atividade física exagerada nem sempre levam a um estado de saúde mental e física positivas.

Para algumas pessoas, quando a dieta restritiva toma o lugar de um processo de reeducação alimentar, as consequências podem ser uma desconexão com seu corpo. “Se eu pego uma prescrição de uma dieta, é uma receita que eu preciso seguir. Já que eu tenho a prescrição a ser seguida, eu não vou mais parar para observar meu corpo e os sinais que ele me dá”, exemplifica Amanda.

Mais grave é quando a restrição gera algum transtorno alimentar e de imagem. No caso da anorexia, uma dieta pode desencadear um mecanismo em que a pessoa vai emagrecendo rápido e restringindo cada vez mais sua alimentação, por não acompanhar a transição na sua imagem.

Em outros casos, a restrição alimentar pode fazer parte de um ciclo de compulsão e bulimia, em que a pessoa consegue seguir na dieta por alguns dias, mas abre uma “concessão”, quando come de tudo para compensar os dias que passou sem fazer isso. A partir daí, a culpa pode levar a episódios de vômitos ou evacuação forçados (bulimia).

“Em geral, todos os pacientes com transtornos alimentares passaram por alguma(s) dieta(s)”, alerta Amanda.

A psicóloga reforça que isso não significa que as pessoas não podem ter disciplina com o que comem. Mas sim que a rigidez pode ser prejudicial no processo. “O que é rígido é inflexível. Se flexibiliza minimamente, quebrou completamente a regra”, exemplifica.

Peso ideal?

Muito além da altura, as pessoas têm formas, dimensões e estruturas diferentes. No entanto, o peso ideal de uma pessoa calculado a partir do IMC (Índice de Massa Corpórea) só leva em conta sua estatura.

Por isso, a nutricionista Nathália Petry prefere trabalhar com o conceito de peso de equilíbrio. “Ele surge porque a gente não acredita que o peso é algo que deveria ser colocado como meta. Na verdade é uma consequência de tudo no seu corpo: sua alimentação, atividade física, genética. É aquele peso que você vai ter naturalmente se você tiver comportamentos de saúde. Se você se alimenta bem, se exercita, se está se sentindo disposto”, explica.

Autoaceitação para ter saúde

Muitos podem encarar a autoaceitação como sinônimo de desistência ou de estagnação. No entanto, a psicóloga Amanda explica que aceitar-se pode levar a uma mudança muito importante para as pessoas: o fim dos pensamentos mágicos. Há quem acredite que, quando emagrecer, será feliz, por exemplo.

“A felicidade, o bem-estar e o conforto estão aqui e agora. Não é com conformismo que queremos trabalhar, mas sim com a possibilidade de respeitar mais a individualidade das pessoas, as respectivas características, e também aceitar o que é imutável, afinal, o corpo não é massa de modelar”, discorre a psicóloga.

Além disso, odiar o próprio corpo não faz com que os hábitos sejam mais saudáveis. Muito pelo contrário, pois pode incentivar ações autodestrutivas.

A nutricionista Nathália esclarece que a autoaceitação não é você amar o seu corpo integralmente. “É você começar a ter uma relação um pouco mais neutra. Parar de ver o seu corpo como obstáculo para sua felicidade. É você entender que este é o corpo que tem, e cuidar dele. Quando a gente gosta, a gente cuida”, explica.

Gratidão ao corpo

Nosso corpo é a forma pela qual existimos no mundo. Nossa ancestralidade se faz presente nas nossas células, tecidos, órgãos e músculos. Só somos capazes de viver nossa história se tivermos nosso corpo forte, saudável. Para que isso aconteça é necessário que nossa saúde mental e psicológica estejam em equilíbrio.

“Se eu tenho uma relação um pouco mais positiva com meu corpo, começo a ser mais grata pelo que ele me permite fazer. Daí, eu começo a ter uma relação mais positiva também com o exercício físico, com a comida. Vou parar de focar no emagrecimento, mas sim no cuidado e no carinho com meu corpo”, desenvolve a nutricionista Nathália.

Ser grato pelo corpo que tem é uma forma de estar de acordo com o que a vida lhe ofereceu. Não há necessidade de ignorar o que não gosta, negligenciar necessidades ou não se cuidar, mas sim de não se colocar como um agente de agressão de si mesmo.

Mudança de hábitos

Quando a perda de peso não é uma meta, se alimentar bem e se movimentar se tornam atividades que você faz por amor a si mesmo, e não em busca de um ideal. “Se eu estou em paz com meu corpo, eu vou procurar um exercício porque eu quero sentir como meu corpo se move, quero fazer algo divertido, gostoso. Como para me nutrir, mas também para ter prazer. Vou começar a respeitar meu corpo na questão da fome e da saciedade”, explica Nathália.

Você dá chance ao seu corpo dizer quando está com fome e quando está satisfeito? Recuperar estes sinais pode ser a chave para uma alimentação mais saudável.

Essas mudanças no pensamento e nos hábitos levam as pessoas a se aproximarem da sua faixa de peso de equilíbrio. Em muitos casos, isso significa um emagrecimento.

Mas Nathália alerta: “Esse emagrecimento é um emagrecimento real, porque se trata da perda da gordura em excesso no meu corpo. Não é um emagrecimento rápido, é pouquinho a pouquinho, consequência das suas mudanças”.

Autoaceitação: uma prática diária

Em um texto escrito para ser lido em dez minutos, a autoaceitação do corpo parece uma tarefa simples. No entanto, sabemos que estamos imersos em estímulos contrários, e olhar para seu corpo com mais neutralidade é uma façanha que deve ser exercitada constantemente.

É claro que esse processo não é linear. Haverá momentos em que as verdades do mundo vão nos convencer e vamos acreditar que nosso valor está em uma barriga chapada, uma bunda empinada ou um manequim abaixo do número 40. Dessa forma, por mais que os devaneios da autoimagem e os complexos pareçam nos tirar a calma, com autoconhecimento será possível entender e lidar melhor com esses processos.

Assim como foi aprendido que determinados padrões são ideais, é momento de abraçar a diversidade e a própria individualidade.